“Eu sei que isso não me faz bem, mas continuo fazendo.”

Essa é uma frase que aparece com frequência quando alguém percebe que determinadas situações parecem se repetir em sua vida.

A pessoa muda de relacionamento, mas encontra novamente o mesmo tipo de conflito. Troca de emprego, mas volta a se sentir desvalorizada. Decide que dessa vez será diferente, mas algum tempo depois percebe que está novamente diante de uma situação muito parecida com aquela que queria deixar para trás.

Às vezes, parece que sabemos exatamente o que não queremos repetir. Ainda assim, repetimos.

Por que isso acontece?

A repetição não é apenas falta de vontade

É comum pensar que, se alguém reconhece um padrão que lhe faz sofrer, bastaria decidir não repeti-lo.

Mas a experiência humana é mais complexa.

Na psicanálise, a repetição não é compreendida simplesmente como uma escolha consciente ou como falta de força de vontade. Há algo que se repete sem que a pessoa tenha necessariamente clareza sobre o motivo dessa repetição.

É possível saber racionalmente o que se deseja evitar e, ainda assim, encontrar-se novamente em situações semelhantes.

Isso acontece porque nem tudo aquilo que orienta nossas escolhas é consciente.

O que se repete?

Quando falamos em repetição, não estamos necessariamente falando de acontecimentos idênticos.

Uma pessoa pode não escolher exatamente o mesmo tipo de parceiro, trabalhar no mesmo lugar ou viver as mesmas situações. O que pode permanecer é uma determinada forma de se colocar diante do outro e de si mesma.

Por exemplo, alguém pode se envolver repetidamente em relações nas quais sente que precisa conquistar o amor do outro.

Os parceiros são diferentes. As histórias são diferentes. As circunstâncias também.

Mas algo parece permanecer: a sensação de não ser suficientemente importante para o outro, a necessidade constante de provar seu valor e o medo de ser abandonado.

A repetição pode estar menos naquilo que acontece e mais na maneira como a pessoa participa daquilo que acontece.

Quando aquilo que conhecemos também nos aprisiona

Existe uma dimensão paradoxal na repetição.

Aquilo que se repete pode produzir sofrimento, mas também pode carregar alguma familiaridade.

O que é conhecido nem sempre é agradável, mas pode ser menos assustador do que aquilo que é completamente novo.

Por isso, sair de um padrão não significa apenas abandonar algo que faz sofrer. Muitas vezes, significa também se aproximar de uma experiência para a qual ainda não se sabe muito bem como responder.

É possível, por exemplo, desejar uma relação mais tranquila e, ao mesmo tempo, sentir estranhamento quando se encontra alguém disponível, cuidadoso e que não reproduz os conflitos das relações anteriores.

O que é novo pode causar angústia justamente porque ainda não sabemos como nos posicionar diante dele.

A repetição e o inconsciente

Uma das contribuições fundamentais da psicanálise é a ideia de que nossa vida psíquica não se limita àquilo que sabemos sobre nós mesmos.

Existem desejos, fantasias, conflitos e formas de relação que não estão inteiramente acessíveis à consciência.

É nesse sentido que a repetição pode ser compreendida como uma via de acesso ao inconsciente.

Aquilo que se repete pode revelar algo que ainda não pôde ser reconhecido ou elaborado.

Não significa que exista uma explicação escondida esperando para ser descoberta, como se fosse possível encontrar uma causa única para cada comportamento.

O trabalho analítico é mais complexo do que isso.

Trata-se de acompanhar aquilo que se repete, escutar como a pessoa fala sobre isso, perceber suas contradições, suas associações e os sentidos que vão surgindo ao longo do processo.

Repetir não é simplesmente reviver o passado

Quando se fala em psicanálise, é comum imaginar que compreender uma repetição significa necessariamente encontrar sua origem na infância.

A história de cada pessoa é importante, mas a questão não é simplesmente descobrir “quando tudo começou”.

O passado continua presente de diferentes maneiras.

Experiências antigas podem participar da maneira como interpretamos situações atuais, como nos relacionamos, como desejamos e como esperamos algo do outro.

O que importa, portanto, não é apenas descobrir o que aconteceu, mas compreender como aquilo continua acontecendo.

O que a repetição pode ensinar?

Talvez uma das perguntas mais interessantes não seja apenas:

“Por que eu faço isso de novo?”

Mas:

“O que acontece comigo quando isso se repete?”

O que eu espero do outro?

O que temo perder?

O que preciso provar?

O que não consigo dizer?

O que acontece justamente no momento em que a relação começa a se tornar diferente?

Essas perguntas podem abrir um espaço para que aquilo que antes parecia apenas um destino comece a ser pensado.

A repetição, nesse sentido, não precisa ser vista apenas como um obstáculo. Ela também pode ser uma possibilidade de escuta.

Quando algo retorna, talvez exista ali alguma coisa que ainda pede elaboração.

Entre repetir e escolher

A psicanálise não promete que compreender um padrão fará com que ele desapareça imediatamente.

Conhecer intelectualmente determinado comportamento não é o mesmo que elaborar aquilo que o sustenta.

Mas existe uma diferença importante entre viver uma repetição sem percebê-la e começar a reconhecê-la.

Quando conseguimos olhar para aquilo que se repete, pode surgir uma pergunta que antes não existia.

E talvez seja justamente aí que alguma mudança se torne possível.

Não porque finalmente descobrimos a fórmula para nunca mais repetir os mesmos erros, mas porque começamos a nos relacionar de outra maneira com aquilo que nos leva a repeti-los.

Talvez a questão não seja simplesmente parar de repetir. Talvez seja poder compreender o que, em nós, continua pedindo para ser repetido.

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